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Até a Copa do Mundo de 2018 ainda existia aquela paixão pela seleção: mesmo que não fosse igual antigamente, o Brasil parava. A partir da Copa de 2022, está nítido que essa paixão se esfriou e muito! O Brasil já não forma mais craques como antigamente e, consequentemente, o futebol apresentado pela Seleção Brasileira não bota medo em ninguém e já não é encantador aos nossos olhos. Vamos analisar profundamente o porquê de tudo isso estar acontecendo.
O mundo aprendeu a jogar futebol
Enquanto o Brasil foi pouco a pouco perdendo seus craques e deixando de formar novos, o mundo foi aprendendo a jogar bola. Seleções que antes eram consideradas fracas e sem tradição, hoje passam algum medo. Podemos citar alguns exemplos claros:
- Marrocos: Sempre teve jogadores técnicos, mas sofria com a falta de consistência e organização coletiva. Tudo mudou com investimentos massivos na infraestrutura local (como a renomada Academia Mohammed VI) e um trabalho cirúrgico para recrutar talentos da diáspora marroquina na Europa.
- Senegal: Historicamente, o futebol africano sempre teve lampejos com Camarões ou Nigéria, mas Senegal era uma força menor até o início dos anos 2000. Após a histórica campanha de 2002, o país investiu pesado em formação de atletas, culminando em uma geração espetacular.
- Estados Unidos: O “soccer” sempre foi tratado em segundo plano na América do Norte, e a seleção americana era vista com desdém pelos puristas do futebol. Esse cenário ruiu. O investimento massivo na MLS e as parcerias de intercâmbio com grandes clubes europeus mudaram o patamar do país.
- Japão: Se voltarmos para a década de 1980, o Japão praticamente não existia no mapa do futebol profissional. A virada de chave veio com a criação da J-League em 1993 e um plano ultraestruturado de longo prazo (o famoso “Plano de 100 anos”).
O futebol se popularizou ainda mais e, consequentemente, países menos expressivos foram formando bons jogadores, igualando o nível entre as seleções copa após copa!
Não formamos mais craques
Enquanto o futebol se popularizava lá fora, nós ficamos parados no tempo, formando apenas bons jogadores e não craques. Nosso futebol foi perdendo o brilho e o que restou foi a história e as cinco estrelas estampadas no peito. Isso o mundo ainda respeita, mas o nosso futebol está igualado ao restante do mundo, sem causar o medo de antes.
Escolha de técnicos
Com exceção do Dunga, historicamente sempre foram boas escolhas, até porque ganhamos cinco copas. Mas quando a CBF escolheu o Ancelotti, eu até defendi; hoje, porém, vejo que foi uma escolha errada. A manutenção do Tite ou a escolha de algum técnico Brasileiro seria a melhor opção por conhecer melhor nosso futebol. Hoje temos um técnico estrangeiro espetacular, mas que não entende muito a nossa cultura. Estamos colhendo os frutos da estagnação do nosso futebol, e definitivamente não será um técnico estrangeiro que vai nos salvar.
O peso da camisa e o fator emocional
Aí é que entra um dos principais fatores: o peso da camiseta na geração atual. Hoje eles entram em campo achando que devem ganhar a qualquer custo porque estão vestindo a camisa mais pesada do mundo. A geração menos talentosa de todos os tempos já entra em campo pressionada, e isso ficou bem evidente na estreia do Brasil na Copa de 2026: o nervosismo e os erros excessivos de passes entregaram isso. Precisamos de um técnico que coloque na cabeça deles que o futebol bem jogado e a disciplina tática já são suficientes hoje em dia, que o passado é passado. Eles têm que entrar leves em campo. Não são ruins, mas a pressão de vestir a camisa afeta o psicológico e, consequentemente, o desempenho em campo.
A pressão gera um ambiente onde ninguém consegue trabalhar em paz. O processo quase sempre segue o mesmo roteiro:
- A crise recorrente: O Brasil perde um jogo importante ou é eliminado. O clima fica insustentável, alguns jogadores acham que a carreira vai acabar, outros jogadores e a comissão técnica se isola.
- Caça às Bruxas: Em vez de analisar os erros táticos, estruturais ou o preparo emocional, a culpa é jogada em bodes expiatórios. Um jogador que errou um passe ou o técnico da vez.
- A solução que nunca da certo: Demite-se o treinador, metade do elenco é afastado e começa a caçada por um “salvador da pátria”.
- O retorno do medo: Os novos convocados entram sabendo que, ao menor deslize, o tribunal da internet e dos programas de esporte vão criticá-los. Eles jogam com medo de errar, e quem joga com medo não cria, não ousa e, eventualmente, falha.
O medo de errar mata o futebol Brasileiro
Historicamente, o diferencial do Brasil sempre foi a improvisação, a ousadia e a alegria de jogar. Só que o improviso exige coragem, e ninguém é corajoso sob terror psicológico.
Quando o atleta entra em campo pensando em “não ser o culpado pela derrota” em vez de pensar em “como ganhar o jogo”, o futebol vistoso morre. Vira um time burocrático, engessado e que desaba emocionalmente no primeiro gol sofrido.
O técnico que corre para o vestiário e os jogadores com “cara de poucos amigos” são o reflexo claro de um grupo que não se sente seguro nem para sofrer a dor da derrota juntos. Falta resiliência porque falta suporte. Enquanto a mentalidade for de que uma derrota joga todo o trabalho no lixo, nós vamos continuar assistindo os mesmos vexames se repetirem.
Conclusão
Temos que entender que hoje o mundo respira futebol, não somos mais unânimes na paixão por esse esporte. Temos que aceitar a nova era do futebol brasileiro e ganhar uma copa na raça, na disciplina tática e com resiliência, porque no talento não dá mais. Se os jogadores entrarem leves, sem pressão e com um técnico brasileiro que entende nosso momento, o psicológico dos jogadores vai mudar e não veremos um futebol medonho e vergonhoso.
A era de ouro ficou para trás. Temos que recomeçar sem pressão. Devemos respeitar a história e os craques do passado, sim, mas nem essa história e nem esses craques vão estar em campo. Quem vai estar lá são os jogadores da geração atual, que devem esquecer um pouco a obrigação de ser o “melhor futebol do mundo” e focar em entregar o seu melhor desempenho.